Estudo Sobre a Revista Espírita 1862, palestra 24.05.60
ESTUDO SOBRE A REVISTA ESPÍRITA 1862 – ANO V
24/05/2026 – Ellen – CELC
I.- DA INTRODUÇÃO
A Revista Espírita de 1862 reúne um conteúdo vasto e extremamente rico, abordando grande diversidade de temas doutrinários, filosóficos, científicos e morais. Neste estudo, apresentado de forma singela e sem qualquer pretensão de esgotar o assunto, são destacados apenas alguns artigos para reflexão e conhecimento. CELC 24.05.26
Trata-se, contudo, de uma pequena amostra da profundidade e da riqueza dos ensinamentos ali contidos. Por essa razão, torna-se indispensável o estudo dedicado das Revistas Espíritas para compreensão da Doutrina Espírita.
II. – DO ARTIGO “AOS NOSSOS CORRESPONDENTES” – MARÇO DE 1862
Esse artigo demonstra que, em 1862, o movimento espírita já havia alcançado grande expansão, tornando impossível responder a todos as correspondências, Kardec informa:
Aos nossos correspondentes
Paris, 1º. de março de 1862. Senhores,
Conheceis o provérbio: “Ninguém é obrigado a fazer mais do que pode”. É escudado nesse princípio que venho reclamar junto a vós. Há seis meses, com a melhor vontade do mundo, é-me impossível pôr em dia a minha correspondência, que se acumula além de todas as previsões. Estou, assim, na situação de um devedor que procura um arranjo com os credores, sob pena de me declarar falido. À medida que são pagas algumas dívidas, chegam novas e mais numerosas obrigações, posto o atrasado cresça em vez de diminuir e, no momento, já me encontro diante um passivo de mais de duzentas cartas. Ora, sendo a média diária de dez, não vejo meio de me liberar, se me não concederdes um sursis ilimitado (um perdão, uma suspensão ilimitada).
Longe de mim lamentar-me pelo número de cartas que recebo, pois isto é uma prova irrecusável da extensão da doutrina e em sua maioria exprimem sentimentos que me sensibilizam profundamente e constituem um arquivo de preço inestimável. Aliás, muitas encerram ensinamentos que jamais ficarão perdidos e que, mais cedo ou mais tarde, serão utilizados conforme as circunstâncias, pois são imediatamente classificados por assunto.
Só a correspondência absorveria e ultrapassaria todo o meu tempo, entretanto ela apenas constituiu a quarta parte de minhas obrigações para com a tarefa que empreendi e cujo desenvolvimento eu estava longe de prever no início de minha carreira espírita.
Assim, várias publicações importantes se acham paradas por falta de tempo para nelas trabalhar e dos meus guias espirituais acabo de receber um convite premente (que não aceita atraso) para me ocupar das causas urgentes sem demora, deixando de lado tudo o mais.
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Comentário – livros publicados por Allan Kardec:
*Obras Póstumas – Foi publicado em 1890, após a morte de Kardec (31/03/1869), reunindo textos e anotações |
Forçoso me é, pois, a menos que falhe na realização da obra tão felizmente iniciada, operar uma espécie de liquidação epistolar do passado e limitar-me, para o futuro, às respostas estritamente necessárias e pedir, coletivamente, aos meus distintos correspondentes, aceitem a expressão de minha viva e sincera gratidão pelos testemunhos de simpatia que me dão.
Entre as cartas que me são dirigidas, muitas encenam pedidos de evocação ou de controle de evocações feitas alhures. Muitas vezes pedem informações sobre aptidão para a mediunidade, ou sobre coisas de interesse material.
Eu lembraria o que já disse alhures (em outro momento) sobre a dificuldade, e mesmo sobre os inconvenientes dessas espécies de evocações feitas na ausência das pessoas interessadas, únicas aptas a verificar a sua exatidão e fazer as perguntas necessárias, ao que se deve ajuntar que os Espíritos se comunicam mais facilmente e com mais benevolência aos seus afeiçoados do que a estranhos que lhes são indiferentes.
Por isso, de lado toda consideração relativa às minhas ocupações, não posso atender aos pedidos dessa natureza senão em circunstâncias muito excepcionais e, em todo o caso, jamais no que concerne a interesses materiais. Muitas vezes seriam evitadas muitas perguntas se os interessados tivessem lido atentamente as instruções a respeito em O Livro dos Médiuns, capítulo 26 (Das perguntas que se podem fazer aos Espíritos. Sobre interesses morais e materiais).
Por outro lado, as evocações pessoais não podem ser feitas nas sessões da Sociedade senão quando ofereçam assunto de estudo instrutivo e de interesse geral. Fora disso só se podem fazer em sessões especiais.
Ora, para satisfazer a todos os pedidos não bastaria uma sessão diária de duas horas. Além do mais, há que considerar que todos os médiuns, sem exceção, que nos dão o seu concurso, o fazem por mera gentileza e não admitem outras condições, e como eles têm as suas próprias obrigações, nem sempre estão disponíveis, por maior que seja a boa vontade. Compreendo todo o interesse que cada um liga às questões que lhe dizem respeito e sentir-me-ia feliz se pudesse responder a todos. Mas se levar em conta que minha posição me põe em contato com milhares de pessoas, compreender-se-á minha impossibilidade de fazê-lo.
É preciso imaginar que certas evocações não exigem menos de cinco ou seis horas de trabalho, tanto para fazê-las quanto para transcrevê-las e passar a limpo, e que todas as que me foram pedidas formariam um volume como O Livro dos Espíritos.
Aliás, os médiuns se multiplicam diariamente e é raro não encontrar um na família ou entre os conhecidos ─ quando não se é em pessoa ─ o que é sempre preferível para as coisas íntimas. É uma questão de experimentar em boas condições, das quais a primeira é a de se compenetrar bem, antes de qualquer tentativa, das instruções sobre a prática do Espiritismo, se se quiserem evitar as decepções.
À medida que a doutrina cresce, minhas relações se multiplicam e aumentam os deveres de minha posição, o que me obriga a negligenciar um pouco os detalhes em favor dos interesses gerais, porque o tempo e as forças do homem têm um limite e eu confesso que as minhas, de algum tempo para cá, me vão faltando e não posso ter o repouso que por vezes me seria tanto mais necessário quanto sou só para dar conta de tudo.
Rogo-vos, senhores, aceiteis a renovada confirmação de meu afetuoso devotamento.
ALLAN KARDEC
III. – DO SR. SANSON: “EXÉQUIAS (FUNERAL) DO SR. SANSON (MEMBRO DA SOCIEDADE ESPÍRITA DE PARIS)” – MAIO 1862
Sanson era amigo de Kardec e era membro da Sociedade Espírita de Paris, tendo desencarnado no dia 21 de abril de 1862, após um ano de cruéis padecimentos.
Quase dois anos antes, em 27 de agosto de 1860, Sanson dirigira a Kardec uma carta onde solicitava que, após a sua morte, fosse evocado e o mais imediatamente possível, e em diversas vezes depois, a fim de que Kardec pudesse estudar a situação do Espírito – o que Sanson chamou de “autópsia espiritual”, dando-lhe os meios de estudar fase por fase, nessas evocações, as diversas circunstâncias que se seguem ao que o vulgo chama a morte.
Assim, ao morrer o Sr. Sanson, no dia 21 de abril de 1862, e uma hora antes do enterro, Kardec juntamente com alguns membros da S.P.E.E. foram ao velório, local onde se encontrava o corpo do Sr. Sanson e ali, uma hora antes do enterro, deu-se a sua primeira comunicação, onde demonstrou plena ciência de sua situação, afirmando que, após 8 horas de sua morte, recobrara a lucidez das suas ideias.
Com a evocação Kardec tinha o duplo objetivo de satisfazer ao pedido do amigo e o de observar a situação do Espírito num momento tão próximo do desencarne, colhendo suas primeiras impressões. (Obs.: Nem todos os Espíritos são aptos a descrever esse fenômeno com tanta lucidez quanto o Sr. Sanson).
1. Evocação.
─ Venho, ao vosso apelo, cumprir a minha promessa.
2. ─ Meu caro Sr. Sanson, cumprimos um dever, que é um prazer, de vos evocar o mais cedo possível após a vossa morte, como o desejastes.
─ É uma graça especial de Deus, que permite ao meu Espírito comunicar-se. Agradeço a vossa bondade, mas estou fraco e tremo.
3. ─ Estáveis tão doente que eu penso que agora podemos perguntar como vos sentis. Ainda tendes dores? Que sensação experimentais, comparando o estado atual com o de dois dias passados?
─ Minha posição é bem feliz, porque nada mais sinto de minhas antigas dores. Estou regenerado e em estado de novo, como costumais dizer. A transição da vida terrena à vida dos Espíritos a princípio me havia deixado tudo incompreensível, porque, às vezes, levamos dias para recuperar a lucidez. Mas antes de morrer fiz uma prece a Deus, pedindo-lhe poder falar àqueles a quem amo, e Deus me ouviu.
4. ─ Ao cabo de quanto tempo recuperastes a lucidez das ideias?
─ Ao cabo de oito horas. Repito: Deus me havia dado uma prova de sua bondade. Ele tinha-me julgado suficientemente digno, e eu não poderia ser bastante agradecido.
5. ─ Estais bem certo de não mais pertencerdes ao nosso mundo? Como o constatais?
─ Oh! Certamente. Não sou mais do vosso mundo. Mas estarei sempre perto de vós para vos proteger e vos sustentar, a fim de pregar a caridade e a abnegação que foram os guias de minha vida. Depois, ensinarei a fé verdadeira, a fé espírita, que deve exaltar a crença do justo e do bom. Estou forte, muito forte; numa palavra, transformado. Vós não reconhecíeis mais o velho enfermo que devia tudo esquecer e abandonar todos os prazeres, toda a alegria. Sou Espírito. Minha pátria é o espaço e meu futuro, Deus, que irradia na imensidão. Eu gostaria muito de poder falar aos meus filhos, pois lhes ensinaria aquilo em que sempre tiveram má vontade para crer.
6. ─ Que sensação vos causa a visão do vosso corpo, aqui ao lado?
─ Meu corpo, pobre e ínfimo despojo (insignificante cadáver), deves voltar ao pó, enquanto eu guardo a agradável lembrança de todos os que me estimavam. Olho esta pobre carne deformada, morada de meu Espírito e provação de tantos anos! Obrigado, meu pobre corpo! Tu purificaste o meu Espírito e o sofrimento dez vezes santo me deu um lugar bem merecido, pois que encontro imediatamente a faculdade de vos falar.
7. ─ Conservastes as vossas ideias até o último instante?
─ Sim, meu Espírito conservou as faculdades. Eu não via mais, mas pressentia. Toda a minha vida desdobrou-se ante a minha lembrança e o meu último pensamento, minha última prece foi para vos poder falar, o que ora faço. Depois pedi a Deus que vos protegesse, a fim de que se realizasse o sonho de minha vida.
8. ─ Tivestes consciência do momento em que o vosso corpo exalava o último suspiro? O que se passou então? Que sensação experimentastes?
─ A vida se rompe e a visão do Espírito se extingue. A gente encontra o vazio, o desconhecido e, levado não sei por que artifício, a gente se encontra em um mundo onde tudo é alegria e grandeza. Eu não sentia mais; eu não me dava conta, contudo, uma felicidade inefável me plenificava. Eu não sentia mais o amplexo (abraço) da dor.
9. ─ Tendes conhecimento… do que pretendo ler à borda do vosso túmulo?
OBSERVAÇÃO DE KARDEC: Apenas pronunciadas as primeiras palavras da pergunta o Espírito respondeu, antes que a mesma fosse completada. Respondeu, além disso, e sem ser perguntado, a questionamentos que se haviam estabelecido entre os assistentes quanto à oportunidade de ler essa comunicação no cemitério, em vista de certas pessoas não compartilharem de nossas opiniões. ─ Oh! Meu amigo, eu sei, porque vos vi ontem e vos vejo hoje e minha satisfação é muito grande. Obrigado! Obrigado! Falai, para que me compreendam e vos estimem. Nada temais, pois respeitam a morte. Falai, pois, a fim de que os incrédulos tenham fé. Adeus. Falai. Tende coragem e confiança, e que meus filhos possam converter-se a uma crença reverenciada (honrada)! Adeus. J. SANSON
Durante a cerimônia no cemitério ele (Sr. Sanson) ditou o seguinte:
Que a morte não vos espante, meus amigos. Ela é uma etapa para vós, se tiverdes sabido bem viver; é uma felicidade, se tiverdes merecido dignamente as vossas provas e as tiverdes bem realizado. Eu vos repito: Coragem e boa vontade! Ligai apenas um valor medíocre aos bens da Terra, e sereis recompensados. Não se pode gozar muito sem prejudicar o alheio bem-estar e sem causar a si próprio um imenso mal. Que a terra me seja leve!
Depois disto, na Revista Espírita de Junho de 1862, Kardec publica mais duas comunicações do Sr. Sanson, nos dias 25 de abril e 2 de maio do mesmo ano de 1862, nas quais responde as questões mais delicadas da situação do Espírito após a morte física, dizendo-se muito feliz por se tornar útil aos antigos colegas e ao seu digno presidente.
PALESTRAS FAMILIARES DE ALÉM TÚMULO, SR. SANSON, 2ª Palestra – 25.04.1862 (Revista Espírita – Junho/1862)
1. Evocação.
─ Meus amigos, estou junto a vós.
2. — Estamos contentes pela conversa que tivemos no dia do vosso enterro. Se o permitirdes, teremos a satisfação de completá-la, para nossa instrução.
─ Estou pronto e feliz por pensardes em mim.
3. ─ Tudo quanto nos possa esclarecer sobre a situação do mundo invisível e nos fazer compreendê-lo é um grande ensinamento, porque é a ideia falsa que dele a gente faz que geralmente conduz à incredulidade. Não vos surpreendais, pois, com as perguntas que vos poderemos dirigir.
─ Não me admirarei e responderei às vossas perguntas.
4. ─ Descrevestes com luminosa claridade a passagem da vida à morte. Dissestes que no momento em que o corpo solta o último suspiro a vida se parte e a visão do Espírito se extingue. Tal momento é acompanhado de sensação penosa, dolorosa?
─ Sem dúvida, porque a vida é uma contínua série de dores, e a morte é o complemento de todas as dores; daí uma dilaceração (rompimento) violenta, como se o Espírito tivesse que fazer um esforço que absorve toda a nossa energia e lhe faz perder o conhecimento daquilo em que se torna.
OBSERVAÇÃO: Esse caso não é geral. A separação pode dar-se com certo esforço, mas a experiência prova que nem todos os Espíritos têm consciência disso, porque muitos perdem a consciência antes de expirar (morrer). As convulsões da agonia as mais das vezes são puramente físicas. O Sr. Sanson apresentou um fenômeno muito raro: o de ser, por assim dizer, testemunha de seu último suspiro.
5. ─ Sabeis se há Espíritos para os quais esse momento é mais doloroso? Por exemplo, é mais penoso para o materialista, para aquele que julga que para si tudo acaba nesse momento?
─ Isso é exato, porque o Espírito preparado já esqueceu o sofrimento, ou antes, já se acostumou a ele, e a quietude com a qual vê a morte o impede de sofrer duplamente, por saber o que o espera. O sofrimento moral é o mais forte, e sua ausência no instante da morte é um grande alívio. Aquele que não crê é semelhante a um condenado à pena máxima e cujo pensamento vê o cutelo (instrumento cortante) e o desconhecido. Há semelhança entre essa morte e a do ateu.
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L. E. 961 – No momento da morte, qual é o sentimento que domina a maioria dos homens: a dúvida, o medo ou a esperança? – A dúvida para os céticos endurecidos, o medo para os culpados e a esperança para os homens de bem. |
6. ─ Haverá materialistas suficientemente endurecidos para acreditarem seriamente que nesse momento supremo serão mergulhados no nada?
─ Sem dúvida, até a última hora alguns creem no nada. Mas, no momento da separação, o Espírito faz um retorno profundo. A dúvida o empolga e o tortura, porque a si mesmo pergunta o que vai acontecer. Ele quer apreender alguma coisa e não consegue. A separação não se dá sem essa impressão.
OBSERVAÇÃO: Em outras circunstâncias um Espírito deu a seguinte descrição do fim do incrédulo (relato de um incrédulo que na hora da morte sente que está caindo num precipício):
“Nos últimos instantes o incrédulo endurecido experimenta as angústias dos pesadelos terríveis nos quais se vê à borda de um precipício, prestes a cair no abismo; faz inúteis esforços para fugir, mas não pode andar; quer agarrar-se em qualquer coisa, achar um ponto de apoio, mas se sente escorregando; quer chamar alguém e não pode articular o menor som. É nessa hora que se vê o moribundo a se torcer, a crispar as mãos e soltar gritos abafados, sinais certos do pesadelo de que é vítima.
No pesadelo comum, o despertar vos tira da inquietude e vos sentis felizes ao reconhecer que éreis vítima de um sonho. O pesadelo da morte, no entanto, prolonga-se às vezes por muito tempo, até anos após o transpasse, e o que dá a sensação ainda mais penosa para o Espírito são as trevas em que se sente, às vezes, mergulhado. Chegamos até a observar diversos casos semelhantes, o que prova que a descrição não é exagerada.”
7. ─ Dissestes que no momento da morte vós não víeis, mas que pressentíeis. É compreensível que não vísseis, mas antes que a vida fosse extinta, já entrevíeis a claridade do mundo dos Espíritos?
─ Foi o que eu disse antes. O instante da morte dá a clarividência ao Espírito. Os olhos não veem mais, mas o Espírito, que possui uma visão muito mais profunda, descobre instantaneamente esse mundo desconhecido, e a verdade lhe aparece de súbito, dando-lhe, posto que momentaneamente, ou uma alegria profunda, ou uma pena inexprimível, conforme o estado de sua consciência e a lembrança de sua vida passada.
OBSERVAÇÃO: Trata-se do instante em que o Espírito perde a consciência, o que explica o emprego daquele momentaneamente, porque as mesmas impressões agradáveis ou penosas continuam ao despertar.
8. ─ Podeis dizer-nos o que foi que vos atingiu, o que vistes, no momento em que vossos olhos se abriram à luz? É possível descrever o aspecto das coisas que se vos ofereceram?
─ Quando me pude ver e ver o que havia ante os meus olhos, eu estava como que deslumbrado e não compreendia muito bem, pois a lucidez não vem de chofre. Mas Deus, que me deu um sinal profundo de sua bondade, permitiu-me recuperar as faculdades. Vi-me cercado por numerosos e fiéis amigos. Todos os Espíritos protetores que nos vêm assistir me rodeavam sorridentes. Animava-os uma felicidade sem igual e eu próprio, sentindo-me bem e forte, podia sem esforço transportar-me no espaço. Aquilo que vi não tem nome na linguagem humana. Aliás, virei falar mais amplamente de todas as minhas felicidades, sem ultrapassar, contudo, o limite marcado por Deus. Sabei que a felicidade, tal qual a entendeis, é uma ficção. Vivei sabiamente, santamente, no espírito da caridade e do amor, e sereis preparados para as impressões que os vossos maiores poetas não poderiam descrever.
PALESTRAS FAMILIARES DE ALÉM TÚMULO, SR. SANSON, 3ª Palestra: 02.05.1862 (Revista Espírita – Junho/1862)
9. ─ Sob que aspecto se vos apresentaram os Espíritos? Sob a forma humana?
─ Sim, meu caro amigo. Os Espíritos nos haviam ensinado na Terra que eles conservam no outro mundo a forma transitória que haviam tido no vosso. É verdade. Entretanto, que diferença entre a máquina informe que se arrasta penosamente com o seu cortejo de provas e a maravilhosa fluidez do corpo dos Espíritos!
Não existe feiura, porque os traços perderam a dureza de expressão que forma o caráter distintivo da raça humana. Deus beatificou todos esses corpos graciosos, que se movem com toda a elegância da forma. A linguagem tem entonações para vós intraduzíveis, e o olhar tem a profundeza das estrelas. Procurai mentalmente ver o que Deus pode fazer na sua onipotência (Poder supremo ou absoluto), ele, o arquiteto dos arquitetos, e tereis feito uma pálida ideia da forma dos Espíritos.
10. ─ Pessoalmente, como vos vedes? Reconhecei-vos sob uma forma limitada, circunscrita, embora fluídica? Sentis a cabeça, o tronco, os braços e as pernas?
─ Tendo conservado a forma humana, mas divinizada, idealizada, o Espírito tem, certamente, os membros de que falais. Sinto perfeitamente as pernas, os dedos, porque, por nossa vontade, podemo-nos tornar visíveis ou apertar-vos as mãos. Estou junto de vós, e apertei a mão de todos os amigos, sem que disso eles tivessem tido consciência, pois a nossa fluidez pode estar por toda a parte, sem interferir no espaço, sem dar sensações, se assim o desejarmos.
Neste momento tendes as mãos cruzadas e as minhas estão sobre as vossas. Eu vos digo: eu vos amo, mas meu corpo não ocupa lugar, e a luz o atravessa. Se isto fosse visível, chamaríeis de milagre, no entanto, para os Espíritos, é uma ação contínua, de todos os instantes.
A visão dos Espíritos não tem relação com a visão humana, assim como o corpo não tem semelhança real, porque tudo mudou na aparência e na substância. O Espírito, repito, tem uma perspicácia (percepção) divina que alcança tudo, pois até pode adivinhar os vossos pensamentos. Assim ele pode, à vontade, tomar a forma que melhor o identifique com as vossas lembranças. Mas, na verdade, o Espírito superior, que terminou as suas provas, prefere a forma que o conduziu a Deus.
11. ─ Os Espíritos não têm sexo. Entretanto, como há poucos dias éreis homem, no vosso estado tendes antes a natureza masculina que a feminina? Dá-se o mesmo com um Espírito que deixou o corpo há muito tempo?
─ Não nos vinculamos à natureza masculina ou feminina. Os Espíritos não se reproduzem. Deus os criou à sua vontade e se, na sua maravilhosa sabedoria, quis que os Espíritos se reencarnassem na Terra, teve que estabelecer a reprodução das espécies pelo macho e a fêmea. Mas compreendeis, sem necessidade de explicação, que os Espíritos não podem ter sexo.
OBSERVAÇÃO: Sempre foi dito que os Espíritos não têm sexo. Os sexos só são necessários para a reprodução dos corpos. Como os Espíritos não se reproduzem, o sexo lhes seria inútil. Nossa pergunta não visava constatar o fato, mas, em vista da morte recente do Sr. Sanson, queríamos saber se perdurava a impressão de seu estado terreno. Os Espíritos puros têm a mais perfeita consciência de sua natureza, mas entre os inferiores, não desmaterializados, muitos ainda se consideram como eram na Terra e conservam as mesmas paixões e os mesmos desejos. Estes ainda se creem homens ou mulheres, e por isto alguns disseram que os Espíritos têm sexo. É assim que certas contradições provêm do estado mais ou menos adiantado dos Espíritos que se comunicam. O erro não é dos Espíritos, mas daqueles que os interrogam e não se dão ao trabalho de aprofundar-se no assunto.
12. ─ Entre os Espíritos que aqui se acham, vedes o nosso presidente espiritual, São Luís?
─ Ele está sempre ao vosso lado, e quando se ausenta, sempre deixa um Espírito superior, que o substitui.
13. ─ Não vedes outros Espíritos?
─ Perdão. O Espírito de Verdade, Santo Agostinho, Lamennais, Sonnet, São Paulo, São Luís e outros amigos que evocais estão sempre nas vossas sessões.
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– Sonnet é citado como um Espírito benfeitor e dissertador. Ele não foi uma figura histórica mundialmente famosa, mas um dos Espíritos orientadores e instrutores da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, participando assiduamente das reuniões conduzidas por Allan Kardec. -Lamennais (1782–1854) foi um importante padre, filósofo e escritor francês. Inicialmente um defensor da autoridade papal, ele rompeu com a Igreja Católica ao defender ideais de liberdade, democracia e reforma social. Recusou os sacramentos no leito de morte e tornou-se um Espírito comunicante na Doutrina Espírita, contribuindo nas obras básicas da codificação do Espiritismo por Allan Kardec. |
14. ─ Que aspecto vos apresenta a sessão? Para as vossas novas vistas é o que era quando estáveis vivo? As pessoas têm a mesma aparência? É tudo tão claro e tão limpo?
─ Muito mais claro, porque posso ler o pensamento de todos e me sinto muito feliz. Ora! A boa vontade de todos os Espíritos reunidos me causa boa impressão. Desejo que a mesma concordância se faça não só em Paris, pela reunião de todos os grupos, mas em toda a França, onde há grupos que se separam e se invejam, impelidos por Espíritos perturbadores que se comprazem na desordem, enquanto que o Espiritismo deve ser o esquecimento completo, absoluto do eu.
15. ─ Dissestes que ledes o nosso pensamento. Poderíeis dar a compreender como se opera essa transmissão?
─ Isso não é fácil. Para vos dizer, para vos explicar esse prodígio singular, da visão dos Espíritos, seria necessário vos abrir todo um arsenal (conjunto) de agentes novos, e seríeis tão sábios quanto nós, o que não é possível, porque vossas faculdades são limitadas pela matéria. Paciência! Tornai-vos bons e chegareis a esse ponto. Atualmente só tendes aquilo que Deus vos concede, mas, com a esperança de progredir continuamente, mais tarde sereis como nós. Procurai bem morrer, a fim de saber muito. A curiosidade, que é o estimulante do homem que pensa, vos conduz tranquilamente até a morte, reservando-vos a satisfação de todas as curiosidades passadas, presentes e futuras.
Enquanto esperais, eu vos direi, para responder mais ou menos à vossa pergunta: O ar que vos envolve, impalpável como nós, leva o caráter do vosso pensamento; o sopro que exalais é, por assim dizer, a página escrita dos vossos pensamentos, que são lidos e comentados pelos Espíritos que estão constantemente ao vosso lado, como mensageiros de uma telegrafia divina à qual nada escapa.
16. ─ Vedes, meu caro Sr. Sanson, que utilizamos largamente a permissão que nos destes para fazermos a vossa autópsia (exame minucioso) intelectual. Não abusaremos. Em outra oportunidade, se assim o desejardes, faremos perguntas de outra ordem.
─ Sentir-me-ei sempre muito feliz por me tornar útil aos meus antigos colegas e a seu digno presidente.
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COMENTÁRIO: 1.-São de Autoria do Espírito Sr. Sanson os artigos datados do ano 1863, a saber: a.- “PERDA DE PESSOAS AMADAS. – MORTES PREMATURAS – O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. V, item 21. b.- Artigo sobre amor ao próximo, inserido no Cap. XI, item 10, de O Evangelho Segundo o Espiritismo. 2. Estes trechos da Revista Espírita de Maio e Junho de 1862, acerca do Sr. Sanson, foram igualmente publicados no livro “O Céu e o Inferno”, na Segunda Parte – Exemplos, Capítulo II – Espíritos Felizes – Sr. Sanson. |
IV. – DO SR. JOBARD – MARÇO 1862
O Sr. Jobard era diretor do Museu Real da Indústria de Bruxelas (capital da Bélgica). No mês de Dezembro de 1861, a Revista Espírita publicou informação do falecimento do Sr. Jobard, em Bruxelas, em 27/10/1861, aos 69 anos de idade, em razão de um ataque de apoplexia (antiga designação de AVC – acidente vascular cerebral). A S.P.E.E. lhe havia concedido o título de presidente honorário.
Na Revista Espírita, de Março de 1862, Kardec informa que, de depois de sua morte, o Sr. Jobard comunicou-se várias vezes na S.P.E.E., em sessões a que, como diz, assiste quase sempre, sendo que – antes de publicá-las – esperou ter uma série de comunicações, formando um conjunto que permitisse melhor apreciá-las. Kardec informa que tinha a intenção de evocá-lo na sessão de 08 de novembro 1961 (Jobard desencarnara em 27/10/1861), mas ele previu o desejo de Kardec e manifestou-se espontaneamente.
1.- Ditado espontâneo (Sociedade Espírita de Paris, 08 de novembro de 1861 – Médium: Sra. Costel), do que se destaca o seguinte:
Jobard se comunicou antes mesmo de ser evocado e contou sobre suas impressões no momento do desligamento do corpo, dizendo ter sentido um abalo estranho e que – de repente – começou a lembrar-se desde o seu nascimento em diante, tendo toda sua vida passado pela sua memória.
Depois “todo esse tumulto se acalmou” e se sentia livre do corpo, que jazia inerte (deitado sem vida). Informou que foi recebido pelos Espíritos que participam dos trabalhos na S.P.E.E. Explicou que o relato era apenas um preâmbulo (introdução) “para mostrar à cada médium meu desejo de ser evocado por ela, e a vós, minha boa vontade em vir responder às perguntas que me ireis dirigir.”
Jobard responde algumas perguntas feitas por Kardec, esclarecendo o seguinte:
– Que estava perto da médium e que se tivesse médium vidente o veria como “o Jobard que se sentava à vossa mesa”;
– Que, se não é visto com os olhos do corpo, ele é visto com os do pensamento. Que se comunica pela escrita, auxiliado por um intérprete e que suas relações com Kardec e com a S.P.E.E. não são interrompidas pela morte, que pode conversar com eles e que ocupara o lugar muitas vezes, mesmo sem que seja percebido, porque seu Espírito habitará entre eles.
– Que desfruta de uma clareza de sua situação e das questões que encara.
– Que se lembra de suas existências anteriores e se sente melhorado (sente que progrediu). Vê e assimila o que vê. Que se lembra de sua penúltima existência (a que precedeu a de Sr. Jobard), na qual foi um mecânico, roído pela miséria e pelo desejo de aperfeiçoar o seu trabalho. E – como Jobard – realizou os sonhos do pobre operário, e agora louva a Deus, cuja bondade infinita fez germinar a planta cuja semente havia depositado em seu cérebro.
2.- SESSÃO PARTICULAR ─ MÉDIUM: SRA. COSTEL, realizada em 11.11.1861, da qual se destaca o seguinte:
– Foi evocado e falou que estava encantado por ter a oportunidade de falar à médium e aos membros da S.P.E.E. também. Kardec lhe perguntou: “Parece-nos que tendes um fraco pela médium? Ao que ele confirmou se limitando a dizer: “Não me censureis. Foi preciso que me tornasse Espírito para testemunhá-lo.”
– Jobard informa que deu poucas comunicações, mas que tem um Espírito que tem dado comunicações se fazendo passar por ele. Relatou:
Minha morte é tão recente que ainda sofro certas influências terrenas. É preciso uma simpatia perfeita para que possa exprimir meu pensamento. Em pouco tempo agirei indistintamente. Por ora ─ repito ─ não posso. Quando morre um homem um pouco conhecido, chamam-no de todos os lados, e milhares de Espíritos se apressam em revestir-se de sua individualidade. Foi o que me aconteceu em muitas circunstâncias. Asseguro-vos que logo depois da libertação, poucos Espíritos podem comunicar-se, mesmo por um médium preferido.”
– Jobard falou sobre o amparo dos Espíritos em prol da S.P.E.E.; que via ali presentes “Lázaro e Erasto; depois, mais afastado, o Espírito de Verdade, planando no espaço; depois uma multidão de Espíritos amigos que vos cercam, agradecidos e benevolentes.”
– Kardec pergunta a ele se conhece as causas da sua morte. E Jobard pede que ele não fale disso ainda.
3. – SESSÃO OCORRIDA NA SOCIEDADE ─ MÉDIUM: SRA. COSTEL, em 22 DE NOVEMBRO DE 1861: fala sobre a formação do planeta Terra e de que a eram errôneas as seguintes opiniões que tinha quando encarnado:
– de que a Terra havia se formado pela reunião de 4 planetas que se haviam soldado;
– de que os homens podiam entrar em catalepsia por um tempo indeterminado e que dessa maneira o gênero humano tinha sido trazido à Terra.
Reconhece que isto era ilusão de sua imaginação. E que já sofreu muito ao repassar essas ilusões.
4. – SESSÃO OCORRIDA em BORDEAUX, em 24 DE NOVEMBRO DE 1861 – MÉDIUM: SRA. CAZEMAJOUX:
Informa que não fazia muito tempo que tinha se ausentado da Terra, e que dentro de alguns anos aí renasceria para retomar o curso da missão que tinha a cumprir, pois ela foi interrompida pelo anjo da libertação.
Que ele aproveita para aprender para estar mais forte quando soar a hora da volta. E que uma única existência não é suficiente para concluir a grande obra de transformação da Sociedade, e que muitos, que preparais os caminhos, revivereis depois de algum tempo, para ajudar novamente na obra santa e abençoada.
5. – SESSÃO OCORRIDA em PASSY, em 20 DE DEZEMBRO DE 1861- MÉDIUM: SRA. DOZON:
Jobard depois de evocado, disse que não sabia porque tinha sido evocado, que nada era para aquele grupo, que nada lhes devia, e que nada responderia sem o Espírito de Verdade.
O grupo de médiuns explicou que foi Kardec, quem lhes pediu para que o chamassem, com o fito de controlar diversas comunicações de Jobard, comparando umas às outras. Um estudo, no interesse da Ciência Espírita.
Jobard esclareceu que – quando encarnado – não estava com a verdade em tudo e suas ideias foram se depurando, chegando a uma nova claridade, e se retratou dos erros de suas crenças (exemplo: formação do planeta Terra).
Em seguida, a mesma médium recebeu uma mensagem espontânea ditada pelo Espírito “A Verdade”, na qual foi esclarecido que:
Jobard, em sua última encarnação, era um pesquisador que exagerou na curiosidade intelectual e foi fulminado. Sua curiosidade o levou a tentar compreender mistérios que Deus ainda não permite aos homens conhecer, não se devendo tentar desvendar prematuramente os segredos divinos. Porque Deus já concede aos homens os esclarecimentos necessários, tendo enviado os Espíritos, e o restante será revelado no tempo oportuno. A principal lição é a da humildade diante dos desígnios e mistérios de Deus.
6. – SESSÃO OCORRIDA NA SOCIEDADE ─ MÉDIUM: SRA. COSTEL, em 03 DE JANEIRO DE 1862:
Informa que começa a viver espiritualmente, mais em paz e menos perturbado pelas evocações que choviam sobre ele e quando essa moda passar, ele pedirá aos amigos sérios que o evoquem, para então esgotar as questões tratadas muito superficialmente, ocasião em que poderá ser útil, e que é isto que ele deseja de todo o coração.
“(À médium Sra. Costel)
─ Volto. Desejas saber por que manifesto preferência por ti. Quando eu era mecânico, tu eras poeta. Eu te conheci no hospital onde morreste, senhora! JOBARD”
– Nessa curta comunicação, Jobard afirma que sua afinidade com a médium Sra. Costel tinha origem na existência passada, quando ele era mecânico, ela era poeta, e ambos teriam se conhecido em um hospital, onde ela veio a falecer. Explica assim a simpatia e a ligação espiritual existentes entre eles como resultado de relacionamento construído em existência anterior.
7. – MONTREAL, CANADÁ, 19 DE DEZEMBRO DE 1861
Henri Lacroix, do Canadá, escreve contando a Kardec que tinha escrito 3 cartas para o Sr. Jobard, mas que este só havia recebido 2 cartas, posto que a terceira chegou tarde demais, ou seja, após a desencarnação de Jobard. E que Jobard só tinha respondido a primeira carta.
Henri Lacroix ao saber da morte de Jobard pelos jornais, recebeu comunicações de vários Espíritos famosos: Voltaire, Volney e Franklin, afirmando que a notícia era falsa, já que Jobard não havia morrido e que passava bem.
Ocorre que a Revista Espírita de Dezembro de 1861 confirmou o falecimento.
Lacroix evocou o Espírito de Jobard, que deu comunicação, informando que aqueles Espíritos haviam tentado enganá-lo. Que era para ele escrever a Kardec, que ele (Jobard) o responderia. E mais, falou para Lacroix que: “as vossas duas cartas, que recebi, contribuíram fortemente para me causar a morte. Mais tarde sabereis como. JOBARD”.
Evocado a respeito, a 10 de janeiro de 1862, na Sociedade de Paris, o Sr. Jobard confirmou ser o autor da comunicação que falava para Lacroix escrever para Kardec, confirmando que a leitura das duas cartas (enviadas por Lacroix) após a refeição determinou a congestão que ocasionou sua morte, embora não pudesse explicar os detalhes. Além disso, advertiu que os espíritas devem desconfiar de comunicações, pois muitos Espíritos mistificadores gostam de enganar os encarnados (“Os Espíritos só enganam aos que se deixam enganar”).
Por fim, Jobard (que havia respondido apenas a 1ª, dentre as 3 cartas que Lacroix houvera lhe enviado) informou que não poderia responder – naquele momento – as duas cartas restantes, especialmente a terceira, que tinha um cunho particular, pois ainda não estava em condições de fazê-lo e que seria inútil provocar, porquanto a resposta não seria dele (Jobard).
8. – SESSÃO NA SOCIEDADE ESPÍRITA DE PARIS, 21 DE FEVEREIRO DE 1862 – MÉDIUM: SENHORITA ESTEFÂNIA
Na sessão de 21/02/1862, foi promovida uma arrecadação pela Sociedade Espírita em favor dos operários de Lyon. Um dos sócios doou 50 francos, dos quais 25 de sua conta e 25 em nome do Sr. Jobard.
Ciente disto, Jobard se comunicou agradecendo por não ter sido esquecido entre os irmãos Espíritas e agradeceu ao sócio que fez a oferta, porque se estivesse encarnado também teria contribuído para a causa.
9. – SUBSCRIÇÃO (COLETA DE DINHEIRO) PARA UM MONUMENTO AO SR. JOBARD
Ainda na Revista Espírita de Março de 1862, Kardec conta que os jornais haviam anunciado uma subscrição (coleta de dinheiro) para a construção de um monumento ao Sr. Jobard. Em razão disso, em 31.01.1862, Kardec comunicou a S.P.E.E. ponderando ser mais útil empregar o dinheiro em auxílio aos necessitados do que em homenagens aos mortos.
E consultou o Sr. Jobard, que se manifestou dizendo: “… dai o vosso dinheiro aos infelizes, e se por acaso nos bolsos dos vossos coletes tiverem ficado algumas moedas de 5 francos, mandai erigir uma estátua. Isso sempre dará para um artista viver.” Ou seja, Jobard deixou claro que a prioridade deve ser socorrer os pobres e infelizes, a realização da caridade prática e da assistência aos vivos sobre as homenagens materiais prestadas aos mortos.
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COMENTÁRIO: Algumas destas comunicações descritas acima obtidas da Revista Espírita de Março de 1862, acerca do Sr. Jobard, foram publicadas no livro “O Céu e o Inferno”, na Segunda Parte – Exemplos, Capítulo II – Espíritos Felizes – Sr. Jobard. |
V. – REMÉDIO DITADO PELOS ESPÍRITOS – NOVEMBRO 1862
Os bons Espíritos se interessam pelo sofrimento da Humanidade. Não é, pois, de admirar que nos procurem aliviar, quando bastante elevados para terem os necessários conhecimentos, pois veem o que não veem os olhos do corpo e preveem o que o homem não pode prever.
O remédio de que se trata foi dado nas circunstâncias seguintes, à senhorita Ermance Dufaux (Médium que escreveu a história de Joana d’Arc), a qual nos remeteu a fórmula, autorizando a sua publicação, em favor dos que dela pudessem necessitar.
Um de seus parentes, falecido há muito tempo, tinha trazido da América a receita de um unguento ou pomada, de maravilhosa eficácia para toda sorte de chagas ou feridas. Com sua morte, perdeu-se a receita, que não tinha sido dada a ninguém.
A senhorita Dufaux estava afetada de um mal na perna, muito grave e muito antigo, e que havia resistido a todo tratamento. Cansada do emprego inútil de tantos remédios, um dia perguntou a seu Espírito protetor se para ela não haveria cura possível.
─ Sim, ─ respondeu ele. ─ Serve-te da pomada de teu tio.
─ Mas vós sabeis que a receita se perdeu.
─ Eu vou te dar ─ disse o Espírito. Depois ditou o seguinte:
“Açafrão ……………………………………… 20 centigramas.
Cominho …………………………………….. 4 gramas.
Cera amarela …………………………………. 31 a 32 gramas.
Óleo de amêndoas doces ………………………. 1 colher.
Derreter a cera e pôr em seguida o óleo de amêndoas doces; juntar o cominho e o açafrão acondicionados num saquinho de pano e ferver, em fogo brando, durante dez minutos. Para usar, deita-se a pomada num pedaço de pano, aplicando-a sobre a parte doente. Repetir diariamente. Antes da aplicação do unguento é preciso lavar a ferida com água de malva ou outra loção refrescante.”
Tendo seguido a prescrição, em pouco tempo a perna da senhorita Dufaux estava cicatrizada, a pele restaurada e, desde então, não sobreveio qualquer acidente.
Também sua lavadeira foi, felizmente, curada de mal idêntico.
Um operário se havia ferido com um fragmento de foice, que penetrou profundamente na ferida, produzindo inflamação, inchaço e a formação de pus (supuração) devido a uma infecção. Falavam em amputar-lhe a perna. Com o emprego daquela pomada, o edema desapareceu, cessou a supuração e o pedaço de ferro saiu da ferida. Em oito dias, ele pode caminhar, recuperou-se e pôde voltar ao trabalho.
Aplicada sobre furúnculos, abscessos (bolsas de pus), panarícios (inflamação ao redor das unhas das mãos ou dos pés causada por bactérias), ela faz supurar (expelir pus) em pouco tempo e cicatrizar. Atua tirando da chaga os princípios mórbidos, saneando-a e provocando, se for o caso, a saída de corpos estranhos, como esquírolas (fragmentos) de ossos, de madeira, etc.
Parece que é também eficaz para os dartrosos (pessoas que sofrem de doenças de pele), e em geral para todas as afecções da pele. Sua composição, como se vê, é muito simples, fácil e, em todo caso, inofensiva. Pode-se, pois, experimentar sem receio.
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COMENTÁRIO: Na Revista Espírita de 1863, em Fevereiro, Kardec conta que recebeu várias cartas que comprovam a excelente aplicação da pomada indicada na Revista Espírita de Novembro de 1862. Kardec relata que um oficial de cavalaria lhe informou que o farmacêutico de seu regimento teve o cuidado de prepará-la para os casos muito frequentes de acidentes causados pelos coices dados pelos cavalos. E que outros farmacêuticos fizeram o mesmo em certas cidades. |
VI. – DA CARTA AO DR. MORHÉRY, A PROPÓSITO DA SRTA. GODU – JANEIRO 1862
A Revista Espírita de 1860 trouxe uma análise detalhada a respeito da mediunidade curadora da Srta. Désirée Godu, sujeita à observação do médico Dr. Mohréry, conforme descrito nos artigos de: 1- MARÇO-1860: UM MÉDIUM CURADOR; 2- ABRIL-1860 CARTAS DO DR. MORHÉRY SOBRE A SRTA. DÉSIRÉE GODU; 3- MAIO-1860: CARTA DO DR. MORHÉRY SOBRE DIVERSAS CURAS OBTIDAS PELA MEDICAÇÃO DA SENHORITA DÉSIRÉE GODU; 4-JUNHO-1860: MEDICINA INTUITIVA.
A Revista Espírita de 1860, contou que a Srta. Désirée Godu, por cerca de oito anos, havia passado sucessivamente por todas as fases da mediunidade; a princípio, médium de efeitos físicos muito poderosa, tornou-se, sucessivamente, médium vidente, audiente, falante, escrevente e, finalmente, todas as suas faculdades se concentraram na cura de doentes, que parecia ser a sua missão, missão que desempenhava com um devotamento e uma abnegação sem limites, tendo relatado inumeráveis casos de cura.
Todavia, cerca de 2 (dois) anos depois, na Revista Espírita de 1862, em Janeiro, Allan Kardec, a propósito da Srta. Godu, nos conta que:
Nos últimos tempos têm sido comentados certos fenômenos estranhos operados pela senhorita Godu e que consistiriam notadamente na produção de diamantes e de grãos preciosos por meios não menos estranhos.
O Dr. Morhéry escreveu-nos a respeito uma longa carta descritiva e algumas pessoas admiraram-se de que não a tivéssemos comentado.
A razão disso é que não aceitamos nenhum fato com entusiasmo. Examinamos as coisas friamente antes de aceitá-las, pois nos ensina a experiência quanto devemos desconfiar de certas ilusões.
Se tivéssemos publicado sem exame todas as maravilhas que nos foram relatadas mais ou menos de boa-fé, nossa revista talvez se tivesse tornado mais divertida, mas devemos conservar-lhe o caráter sério que sempre teve.
Quanto à nova e prodigiosa faculdade que se teria revelado na senhorinha Godu, francamente achamos que a de médium curador era mais preciosa e mais útil à Humanidade, e mesmo à propagação do Espiritismo.
Contudo, nada negamos, e aos que pensam que com tal notícia logo teríamos tomado a estrada de ferro para nos certificarmos, responderemos que, se a coisa é verdadeira, não deixará de ser constatada oficialmente. Então será o momento de falar, e não teremos nenhuma reserva em ser o primeiro a proclamá-la.
Eis um resumo da resposta dada por Kardec ao Dr. Morhéry:
“…É certo que não publiquei todos os relatórios que me enviastes sobre as curas operadas pela senhorinha Godu, mas disse o bastante para chamar a atenção para ela. Falar constantemente do caso fora dar a impressão de estar a serviço de interesses particulares. Aconselhava a prudência esperar que o futuro confirmasse o passado.
Quanto aos fenômenos que relatais na última carta, são tão estranhos que não me aventurarei a publicá-los senão quando tiver a sua confirmação de maneira irrefutável. Quanto mais anormal um fato, mais circunspecção (ponderação) ele exige. Não vos surpreendereis de que eu use muita, em tais circunstâncias.
É este, também, o conselho do Comitê da Sociedade, ao qual submeti a vossa carta. Por unanimidade foi decidido aguardar o desenvolvimento, antes de falar do caso. Até agora tal fato é tão contrário a todas as leis naturais, e mesmo a todas as leis conhecidas do Espiritismo, que o primeiro sentimento que provoca, mesmo entre os espíritas, é de incredulidade. Falar dele antecipadamente e antes de poder apoiar-se em provas autênticas seria excitar inutilmente a veia dos trocistas (piadistas, zombeteiros).”
VII. – DA MORTE DO BISPO DE BARCELONA – AGOSTO 1862
A Revista Espírita de Novembro de 1861, no artigo intitulado “OS RESTOS DA IDADE MÉDIA” falou sobre o episódio conhecido como “Auto de Fé de Barcelona”, ocorrido em 9 de outubro de 1861, quando cerca de 300 livros e brochuras espíritas enviados por Allan Kardec para venda na Espanha foram apreendidos na alfândega de Barcelona e queimados em praça pública, por determinação do bispo local, Antonio Palau Termes. A cerimônia reproduziu simbolicamente os antigos Autos de Fé da Inquisição, contando com a presença de autoridades religiosas e civis.
“Auto de Fé” era o nome dado a uma cerimônia em que eram proclamadas e executadas as sentenças do Tribunal de Inquisição da Igreja Católica, também conhecido como Tribunal do Santo Ofício — foi instituído no começo do século XIII, a pretexto de caçar e julgar os réus acusados de heresia (crime contra a fé cristã).
Na Revista Espírita de Novembro de 1861, Kardec criticou o ato tanto sob o aspecto moral quanto jurídico, questionando a legalidade da destruição de uma propriedade regularmente importada e cuja devolução ao remetente havia sido recusada. Contudo, observou que a medida produziu efeito contrário ao pretendido, pois despertou a curiosidade do público e ampliou a divulgação do Espiritismo. Em sua conhecida frase, afirmou que “podem queimar-se livros, mas não se queimam ideias”.
E, na Revista Espírita de Agosto de 1862, no artigo intitulado “MORTE DO BISPO DE BARCELONA”, Kardec relata que recebeu uma carta da Espanha contando que o bispo de Barcelona, Antonio Palau Termes, aquele que – em 09/10/1861 – mandou queimar trezentos volumes espíritas, pela mão do carrasco, morreu no dia 9 de julho de 1862, e foi enterrado com a pompa costumeira para os chefes da Igreja.
Apenas nove meses são decorridos (contados da queima dos livros, ocorrida em 09/10/1861 e a morte do bispo, em 09/07/1862), e o resultado pressentido por todos ocorreu, isto é, apressou a propagação do Espiritismo naquele país.
Um dos correspondentes de Kardec, na Espanha, anunciando a morte do bispo de Barcelona, sugeriu a sua evocação. Kardec se dispôs a fazê-lo, tinha já preparado algumas perguntas, quando ele se manifestou espontaneamente a um dos médiuns da S.P.E.E., respondendo por antecipação a todas as perguntas que lhe queriam fazer, antes que as mesmas fossem enunciadas. Sua comunicação, de caráter absolutamente imprevisto, continha, entre outras, a seguinte passagem:
“…Auxiliado por vosso chefe espiritual, pude vir ensinar-vos com o meu exemplo e vos dizer: Não repilais nenhuma das ideias anunciadas porque um dia, um dia que durará e pesará como um século, essas ideias amontoadas gritarão como a voz do anjo: Caim, que fizeste de teu irmão? Que fizeste de nosso poder, que deveria consolar e elevar a Humanidade?
O homem que voluntariamente vive cego e surdo de espírito, como outros o são do corpo, sofrerá, expiará e renascerá para recomeçar o labor intelectual que a sua preguiça e o seu orgulho levaram a evitar.
Essa voz terrível me disse: Queimaste as ideias e as ideias te queimarão!…
Orai por mim. Orai, porque é agradável a Deus a prece que lhe é dirigida pelo perseguido, em favor do perseguidor.
Aquele que foi bispo e que não passa de um penitente (arrependido).”
Esse contraste entre as palavras do Espírito e as do homem nada tem de surpreendente. Todos os dias vemos gente que após a morte pensa diversamente do que pensava em vida, uma vez caída a venda das ilusões, o que é uma prova incontestável de superioridade. Os Espíritos inferiores e vulgares são os únicos que persistem no erro e nos preconceitos da vida terrena.
Quando vivo, o bispo de Barcelona via o Espiritismo através de um prisma particular, que lhe desnaturava as cores ou, melhor dizendo, ele não o conhecia. Agora o vê sob sua verdadeira luz e lhe sonda a profundidade. Caído o véu, já não é para ele uma opinião, uma teoria efêmera que se pode sepultar nas cinzas. É um fato. É a revelação de uma lei da Natureza, lei irresistível como a força da gravitação, lei que deve, pela força das coisas, ser aceita por todos, como tudo quanto é natural. Eis o que ele compreende agora, e o que o constrangeu a dizer que “as ideias que quis queimar o queimarão”, ou, em outras palavras, prevalecerão sobre os preconceitos que o levaram a condená-las.
Não podemos desejar que assim seja, pelo tríplice motivo de que o verdadeiro espírita a ninguém deseja isso; não conserva rancor; esquece as ofensas e, a exemplo do Cristo, perdoa aos inimigos. Em segundo lugar porque, longe de nos prejudicar, ele nos serviu.
Enfim, porque ele reclama (suplica, implora) de nós a prece do perseguido pelo perseguidor, como a mais agradável a Deus, pensamento todo caridade, digno da humildade cristã revelada pelas suas últimas palavras: “Aquele que foi bispo e que não passa de um penitente”. Bela imagem das dignidades terrenas deixadas à borda da sepultura, para se apresentar a Deus tais quais elas são, sem os atavios (adornos, enfeites) impostos aos homens.
Kardec finaliza rogando aos Espíritas para perdoarem o mal que o Bispo os quis fazer, como querem que as suas ofensas sejam perdoadas, e roguem por ele no aniversário do Auto de Fé ocorrido em 9 de outubro de 1861.
VIII. – DA EPIDEMIA DE OBSESSÃO NA SABOIA – ABRIL 1862
Na Revista Espírita, em Abril de 1862, sob o título de EPIDEMIA DEMONÍACA NA SABÓIA, Kardec relata que:
“Há tempos os jornais falaram de uma monomania epidêmica (obsessão por um único pensamento/comportamento entre várias pessoas de um mesmo grupo ou região) declarada em uma parte da Alta Saboia (fica no sudeste da França, nos Alpes Franceses, na fronteira com a Suíça e a Itália) e contra a qual falharam todos os recursos da medicina e da religião.
O único meio que produziu resultados mais ou menos satisfatórios foi a dispersão dos indivíduos por diversas cidades.
A respeito recebemos do capitão B…, membro da Sociedade Espírita de Paris, atualmente em Annecy (cidade que fica na Alta Saboia), a carta adiante transcrita:”
“Annecy, 7 de março de 1862.
“Sr. Presidente,
“Querendo ser útil à Sociedade, tenho a honra de remeter-lhe uma brochura, enviada por um de meus amigos, o Dr. Caille, encarregado pelo ministro de acompanhar o inquérito feito pelo Sr. Constant, inspetor das casas de alienados, sobre os casos muito numerosos de demonomania observados na comuna de Morzine, departamento de Thonon, na Alta Saboia.
Ainda hoje essa infeliz população se acha sob a influência da obsessão, a despeito dos exorcismos, dos tratamentos médicos, das medidas tomadas pelas autoridades e do internamento nos hospitais do departamento. Os casos diminuíram um pouco, mas não cessaram e o mal existe, por assim dizer, em estado latente (existe de forma oculta ou adormecida).
Com o objetivo de exorcizar esses infelizes, na maioria crianças, o cura mandou trazê-los à igreja, conduzidos por homens vigorosos. Apenas pronunciou as primeiras palavras latinas, produziu-se uma cena terrificante: gritos, saltos furiosos, convulsões, etc., a tal ponto que mandaram chamar a polícia e uma companhia de infantaria (tropa de combate, que luta à pé) para restabelecer a ordem.
Não me foi possível obter todas as informações que desejava mandar-vos hoje, mas os fatos me parecem bastante sérios e dignos de vosso exame. O alienista (termo antigo para psiquiatra) Dr. Arthaud, de Lyon, fez um relatório para a sociedade médica desta cidade, que foi publicado pela Gazette Médicale de Lyon e que o senhor poderá obter através do seu correspondente.
No hospital desta cidade temos duas senhoras de Morzine, em tratamento. O Dr. Caille concluiu por uma afecção nervosa epidêmica (doença do sistema nervoso que se espalhou por uma população ou região) rebelde a toda espécie de tratamento e de exorcismo. Só o isolamento produziu bons resultados. Todos os infelizes obcecados, em suas crises, pronunciam palavras sujas; dão saltos prodigiosos por cima das mesas; sobem em árvores; sobem nos telhados e às vezes profetizam.
Se fatos idênticos ocorreram nos séculos dezesseis e dezessete nos conventos e nos campos, não é menos certo que, no nosso século dezenove, eles oferecem a todos os espíritas um assunto de estudo do ponto de vista da obsessão epidêmica, generalizando-se e persistindo durante anos, pois o primeiro caso observado foi há cinco anos. Terei a honra de vos enviar todos os documentos e informações que puder obter.
Receba, etc. “B…”
As duas comunicações que se seguem foram dadas sobre o assunto, na Sociedade de Paris, pelos nossos Espíritos habituais:
Comunicação dada pelo Espírito Georges (Médium: Sra. Costel):
“Não são médicos, mas magnetizadores, espiritualistas ou espíritas que deveriam ser mandados para dissipar a legião de Espíritos malévolos extraviados (desviados, pervertidos) no vosso planeta. Digo extraviados porque eles estão apenas de passagem. Entretanto, por muito tempo a infeliz população, manchada ao seu impuro contato, sofrerá, moral e fisicamente.
Onde o remédio? Perguntais. Surgirá do mal, porque os homens, apavorados com essas manifestações, acolherão com entusiasmo o benéfico contato dos bons Espíritos que os sucederão, como a aurora sucede à noite.
Essa pobre população, alheia a qualquer trabalho intelectual, não teria conhecido as comunicações inteligentes dos Espíritos, e nem mesmo as teria percebido.
A iniciação e os males causados por essa turba (multidão desordenada) impura abrem olhos fechados e as desordens, os atos de demência, são apenas o prelúdio (introdução) da iniciação, porque todos devem participar da grande luz espírita.
Não vos lamenteis por essa maneira cruel de proceder. Tudo tem um fim e os sofrimentos devem fecundar, assim como as tempestades que destroem a colheita de uma região enquanto fertilizam outras.”
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COMENTÁRIO: Ou seja, essa comunicação esclarece dizendo que não é para se lamentarem, porque essa obsessão coletiva tem um fim útil, pois despertará o interesse das pessoas pelas realidades espirituais, para a expansão do Espiritismo. |
Comunicação dada pelo Espírito Erasto (Médium: Sr. D’Ambel):
“Os casos de demonomania que agora ocorrem na Saboia também se produzem em muitos outros lugares, notadamente na Alemanha, mas muito principalmente no Oriente. Esse fato anormal é mais característico do que pensais. Em verdade, ao observador atento revela uma situação análoga (semelhante/parecida) à que se manifestou nos últimos anos do paganismo.
Ninguém ignora que quando o Cristo, nosso bem-amado Mestre, encarnou-se na Judéia, sob a personalidade do carpinteiro Jesus, aquela região havia sido invadida por legiões de maus Espíritos que, pela possessão, como hoje, se apoderavam das classes sociais mais ignorantes; dos Espíritos encarnados mais fracos e menos adiantados, numa palavra, dos indivíduos que guardavam os rebanhos ou que se dedicavam aos trabalhos do campo.
Não percebeis uma grande analogia (comparação) na reprodução desses fenômenos idênticos de possessão? Ah! Nisto existe um ensinamento muito profundo! Disto deveis concluir que cada vez mais se aproximam os tempos preditos e que o Filho do Homem em breve virá expulsar de novo a turba de Espíritos impuros que se abateram sobre a Terra e reavivar a fé cristã, dando a sua alta e divina sanção às consoladoras revelações e aos regeneradores ensinamentos do Espiritismo.
Voltando aos casos atuais de demonomania, é preciso lembrar que os cientistas e os médicos do século de Augusto trataram, conforme os processos hipocráticos, os infelizes possessos da Palestina e que toda a sua ciência fracassou ante esse poder desconhecido.
Ora! Ainda hoje todos os vossos inspetores de epidemias; todos os vossos mais notáveis alienistas, sábios doutores em materialismo puro, fracassam do mesmo modo ante essa doença exclusivamente moral; diante dessa epidemia exclusivamente espiritual.
Mas, que importa! Meus amigos, vós que fostes tocados pela graça nova, sabeis quanto esses males passageiros são curáveis pelos que têm fé. Esperai, pois. Esperai com confiança a vinda daquele que já resgatou a Humanidade. A hora se aproxima. O Espírito precursor já está encarnado. Em breve, pois, se efetivará o desenvolvimento completo desta doutrina que tomou por divisa: Fora da Caridade não há salvação!”
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COMENTÁRIO: Ou seja, essa comunicação estabelece uma comparação entre esses casos da Alta Saboia e as obsessões descritas nos Evangelhos, afirmando que fenômenos semelhantes teriam ocorrido na época de Jesus, o que indicaria a proximidade de uma renovação moral e espiritual da humanidade. |
Kardec destaca que não se trata de uma afecção orgânica, mas de uma influência oculta. Que os Espíritos perversos não só agem sobre o pensamento, mas também sobre o corpo, com o qual se identificam e do qual se servem, eles provocam atos ridículos, gritos, movimentos desordenados com toda a aparência da loucura ou da monomania.
É necessário, pois, distinguir a loucura patológica da loucura obsessiva.
A primeira (loucura patológica) é produzida por uma desordem nos órgãos da manifestação do pensamento. Notemos que nesse estado de coisas não é o Espírito que é louco, porque ele conserva a plenitude de suas faculdades, como o demonstra a observação. Contudo, estando desorganizado o instrumento (órgãos materiais/corpo físico) de que se serve para manifestar-se, o pensamento, ou melhor, a expressão do pensamento é incoerente.
Na loucura obsessiva não há lesão orgânica. É o próprio Espírito que se acha afetado pela subjugação de um Espírito estranho que o domina e comanda.
No primeiro caso (loucura patológica) é preciso tentar curar o órgão doente; no segundo (loucura obsessiva), basta livrar o Espírito doente do hóspede importuno, a fim de restituir-lhe a liberdade.
Casos semelhantes são muito frequentes e comumente consideram loucura o que não passa de obsessão, para a qual deveriam empregar-se meios morais e não duchas. Pelo tratamento físico, e, sobretudo, pelo contato com os verdadeiros alienados, muitas vezes tem sido determinada uma loucura real onde esta não existia.
O Espiritismo, que abre novos horizontes a todas as ciências, vem esclarecer também a questão muito obscura das doenças mentais, assinalando uma causa que até agora não era levada em conta, uma causa real (Espírito perturbado por obsessões), evidente, provada pela experiência e cuja verdade mais tarde será reconhecida.
Graças a Deus as ideias espíritas, para o bem da Humanidade, fazem maior progresso entre os médicos do que era dado esperar, e tudo leva a crer que em futuro não muito remoto a Medicina sairá, enfim, da rotina materialista.
Averiguados os casos isolados de obsessão, compreende-se que tal qual uma nuvem de gafanhotos, um bando de maus Espíritos pode cair sobre certo número de criaturas, delas apoderar-se e produzir uma espécie de epidemia moral. A ignorância, a fraqueza das faculdades e a falta de cultura intelectual naturalmente lhes oferece maiores facilidades, por isso eles atuam de preferência sobre certas classes, embora as pessoas inteligentes e instruídas nem sempre estejam isentas.
(…)
O que acontece na Saboia, chamando a atenção, possivelmente apressará o momento em que será reconhecida a parcela de ação do mundo invisível nos fenômenos da Natureza. Uma vez entrando nesse caminho, a Ciência possuirá a chave de muitos mistérios e verá cair a mais formidável barreira que detém o progresso: o materialismo, que restringe o círculo da observação, em vez de ampliá-lo.
IX. – UMA RECONCILIAÇÃO PELO ESPIRITISMO – SETEMBRO 1862
Kardec relata uma ocorrência que demonstra a benéfica influência do Espiritismo para restabelecer a harmonia entre famílias e indivíduos, vejamos:
“Um capitão da marinha mercante do Havre (cidade portuária no noroeste da França, há cerca de 200 Km de Paris), nosso conhecido pessoal, é excelente espírita e bom médium. Havia iniciado ao Espiritismo vários homens de sua equipagem e só tinha motivos para se felicitar pela ordem, disciplina e bom comportamento. Tinha a bordo seu irmão de dezoito anos e um piloto de dezenove, ambos bons médiuns, animados de fé viva e que recebiam com fervor e reconhecimento os sábios conselhos dos Espíritos protetores.
Uma noite, porém, discutiram, das palavras foram a vias de fato (agressão física). Assim, acertaram lugar e hora para se baterem a bordo, na manhã seguinte. Tomada a decisão, separaram-se.
À noite sentiram vontade de escrever e, cada qual de seu lado, recebeu dos guias invisíveis uma séria admoestação (advertência, repreensão) sobre a futilidade de sua discussão e conselhos sobre a felicidade da amizade, com um convite à reconciliação, sem preconceitos. Movidos pelo mesmo sentimento, os dois jovens deixaram simultaneamente seu lugar, e vieram chorando lançar-se nos braços um do outro. Desde então nenhuma nuvem turvou (perturbou) a sua mútua compreensão.
O próprio capitão nos fez o relato. Vimos o seu caderno de comunicações espíritas, bem como os dos dois jovens, onde lemos aquela de que acabamos de falar.
O fato seguinte ocorreu ao mesmo capitão, numa de suas travessias.
Foi em alto mar, com o melhor tempo do mundo, quando ele recebeu a seguinte comunicação: “Toma todas as precauções, porque amanhã, às duas horas, cairá uma borrasca (tempestade violenta) e teu navio correrá grande perigo.”
Como nada deixava prever o mau tempo, o capitão logo pensou numa mistificação. Contudo, para não ter motivos para censurar-se, ao acaso tomou algumas medidas. Não teve de que se arrepender, pois exatamente na hora predita desencadeou-se violenta tempestade e durante três dias o navio enfrentou os maiores perigos que já lhe ocorreram. Graças, porém, às precauções tomadas, safou-se sem acidentes.”
Kardec relata que o fato da reconciliação gerou as seguintes reflexões:
“Um dos resultados do Espiritismo bem compreendido ─ e insistimos na expressão bem compreendido ─ é o desenvolvimento do sentimento de caridade. Mas, como se sabe, a própria caridade tem um conceito muito elástico, que vai desde a simples esmola até o amor aos inimigos, que é a sublimação da caridade. Pode-se dizer que ela resume todos os nobres impulsos da alma para com o próximo. O verdadeiro espírita, como o verdadeiro cristão, pode ter inimigos. Não os teve o Cristo? Mas ele não é o inimigo de ninguém, pois está sempre apto a perdoar e a pagar o mal com o bem.
Se dois verdadeiros espíritas tiverem tido outrora motivos para recíproca animosidade, sua reconciliação será fácil, porque o ofendido esquece a ofensa e o ofensor reconhece a sua sem-razão. Desde então não mais querelas entre eles, porque serão reciprocamente indulgentes e farão mútuas concessões. Nenhum deles procurará impor ao outro um perdão humilhante, que irrita e fere mais do que acalma.
Se, em tais condições, dois indivíduos podem viver em boa harmonia, pode dar-se o mesmo com um grande número de indivíduos, que então serão tão felizes quanto é possível sê-lo na Terra, porque a maior parte de nossas atribulações surge do contato com os maus. Suponde, então, uma nação inteira impregnada de tais princípios. Não seria ela a mais feliz do mundo?
Aquilo que é, quando muito, possível para os indivíduos, dirão uns, é utopia para as massas, a menos que se dê um milagre. Ora! Tal milagre, o Espiritismo já fez muitas vezes, em pequena escala, nas famílias desunidas, onde restabeleceu a paz e a concórdia. O futuro provará que pode fazê-lo em larga escala.
X. – DA CONCLUSÃO
Concluindo este singelo estudo, trazemos do mês de Fevereiro de 1862, alguns trechos de uma Carta enviada por Allan Kardec aos Espíritas Lioneses (de Lyon, na França), que os convida a manter a disciplina, os estudos, o cumprimento do dever, vejamos:
“Meus caros irmãos e amigos de Lyon, (…)
No ponto em que hoje as coisas se acham e considerando-se a marcha do Espiritismo por meio dos obstáculos semeados em sua rota, pode-se dizer que as principais dificuldades foram vencidas. Ele tomou o seu lugar e assentou-se em bases que de agora em diante desafiam os esforços dos adversários. (…)
Como queríeis que uma doutrina que conduz ao reino da caridade efetiva não fosse combatida por quantos vivem no egoísmo? E sabeis como estes são numerosos na Terra! (…) Ficai avisados: a luta não terminou. Estou prevenindo que eles vão tentar um supremo esforço. Não temais, entretanto, pois o penhor (garantia) do sucesso está nesta divisa, que é a de todos os verdadeiros espíritas: Fora da caridade não há salvação.
(…)
A tática ora em ação pelos inimigos dos espíritas, mas que vai ser empregada com novo ardor, é a de tentar dividi-los, criando sistemas divergentes e suscitando entre eles a desconfiança e a inveja. Não vos deixeis cair na armadilha, e tende certeza de que quem quer que procure, seja por que meio for, romper a boa harmonia, não pode ter boas intenções. Eis por que vos advirto para que tenhais a maior circunspeção na formação dos vossos grupos, não só para a vossa tranquilidade, mas no próprio interesse dos vossos trabalhos.
A natureza dos trabalhos espíritas exige calma e recolhimento. Ora, isto não é possível se somos distraídos pelas discussões e pela expressão de sentimentos malévolos. Se houver fraternidade, não haverá sentimentos malévolos, mas não pode haver fraternidade com egoístas, ambiciosos e orgulhosos. Com orgulhosos que se chocam e se ferem por tudo; com ambiciosos que se desiludem quando não têm a supremacia; com egoístas que só pensam em si mesmos, a discórdia não tardará a ser introduzida. Daí, vem a dissolução. É o que queriam nossos inimigos e é o que tentarão fazer. Se um grupo quiser estar em condições de ordem, de tranquilidade, de estabilidade, é preciso que nele reine um sentimento fraterno. (…)
Devo ainda assinalar-vos outra tática dos nossos adversários, a de procurar comprometer os espíritas, induzindo-os a se afastarem do verdadeiro objetivo da doutrina, que é o da moral, para abordarem questões que não são de sua alçada (…) Não vos deixeis cair também nesse laço. (…). Procurai no Espiritismo aquilo que vos pode melhorar. Eis o essencial. (…)
Se alguns quiserem fazer um grupo à parte, não os olheis com prevenção. Se vos atirarem pedras, nem as recolhais, nem as devolvais. Entre eles e vós, Deus será o juiz dos sentimentos de cada um. (…). Se estiverdes em dúvida, fazei sempre o bem.
(…)
Provai, enfim, pelo vosso exemplo, que a doutrina nos torna mais moderados, mais brandos, mais pacientes, mais indulgentes, o que será a melhor resposta aos detratores, ao mesmo tempo que a vista dos resultados benéficos é o melhor meio de propaganda.
Eis, meus amigos, os conselhos que vos dou e aos quais junto os meus votos para o ano que começa. Não sei que provas Deus nos destina para este ano, mas sei que, sejam quais forem, as suportareis com firmeza e resignação, pois sabeis que para vós, como para o soldado, a recompensa é proporcional à coragem.”
FONTE: REVISTA ESPÍRITA – ANO V – 1862.